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Wilmar Alves (*)
Os governos têm o péssimo costume de alimentar
com o dinheiro público certas publicações sem as quais a humanidade
continuaria caminhando do mesmo jeito, talvez até um pouco
melhor. Dessas publicações que interessam mais a quem as inventa
e surgem da noite para o dia com a finalidade imediata de
emitir faturas e embolsar as verbas oficiais. Algumas ousam
arriscar um projeto de influência política e editorial, mas
só convencem os leitores imprevidentes e mais apressados.
Em sua maioria, são jornais e revistas que chegam apenas às
repartições públicas e algumas poucas bancas. Se deixam de
circular, ninguém sente falta. Mas, se circulam, pode ser
um deus-nos-acuda, especialmente quando se colocam a serviço
de governantes que, irresponsavelmente, não vacilam em pendurá-las
no cabide do erário. A conta fica para o povo, assim como
o rombo do dinheiro que salva os bancos falidos e enriquece
os que fraudam as sudams e sudenes da vida.
Os tais jornais e revistas de aluguel faturam
alto em épocas pré-eleitorais. Como não têm compromisso com
a ética e a seriedade, são usados para produzir material de
campanha, manchetes fortes para conteúdos podres, fabricados
de acordo com a encomenda de quem tem as chaves do cofre.
Geralmente essas publicações são governistas
de conveniência, desde a primeira até à última página. Seus
colunistas freqüentam as mesmas fontes, os mesmos palácios
e os mesmos interesses. Só mudam a postura quando o povo muda
os governantes, mas logo estão eles lá, de novo, vendendo
o pescoço para as novas autoridades pendurarem a chapa branca.
É muito fácil identificar essas publicações
e os negócios escusos que elas representam. Entre os jornalistas
e os políticos com um pouco mais de estrada, só não vê isso
quem não quer.
As empresas que as editam não cumprem nenhuma
finalidade social. No lugar de um quadro próprio de profissionais,
têm colaboradores e colunistas que às vezes até cobram pelas
notas que publicam. Puro jabaculê. Em vez de articulistas
respeitáveis, têm bate-paus e puxa-sacos. As matérias são
criteriosamente planejadas para bater ou bajular. Destroem
uns, enaltecem outros. Os donos são mestres em chantagens;
gritam nos corredores da tesouraria do governo, oferecem propinas
e alimentam arapongas com uma competência de fazer inveja
às ditaduras que já vivemos.
Costumam dever quantias fabulosas ao fisco,
à previdência, ao FGTS, aos fundos de desenvolvimento. Conseguem
financiamentos com tamanha facilidade, que parecem ser os
empresários mais idôneos do mundo. Auréola falsa. Não sobreviveria
sequer a uma quebra de sigilo fiscal ou bancário.
Os proprietários dessas estruturas investem
muito mais em suas fazendas e em outros negócios do que nas
publicações propriamente ditas. Não precisam modernizar a
estrutura física nem o caráter. Papel aceita tudo; leitores
desavisados, também.
Se os governos lhes negam alguma coisa, eles
atacam. Se a dádiva é modesta, eles ferroam. Se o gestor público
não os reconhece ou não lhes dá a importância que reivindicam,
eles achincalham. Mas se os governos os privilegiam, eles
abraçam.
A dignidade dos ofendidos os poupa do revide
no mesmo nível, porque as pessoas prejudicadas julgam indigno
se sujarem de coisa tão ruim.
Por que os governos alimentam essas publicações
e esses "negócios"? Com que direito dão o dinheiro do contribuinte
à vigarice, à sordidez e ao submundo da imprensa de aluguel?
Afinal, isso é ou não é corrupção? Quem financia quadrilhas
é o quê?
E os jornalistas? Por que se omitem e vêem
assim tão passivos se aviltarem o mercado de trabalho e a
própria profissão? Para quem não compreende os mecanismos
internos e os interesses externos de determinadas publicações,
somos todos iguais. Uns têm respeito pelas nossas credenciais,
outros nos consideram a excrescência da intelectualidade.
E, para muitos, somos bandidos mesmo.
Enquanto isso, os governantes que sustentam
esses negócios...
Puxa, eles costumam se reeleger com a conivência
de muitos jornalistas, gente que "forma opinião".
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(*) Wilmar Alves (wilmar.alves@terra.com.br)
é jornalista, diretor de jornalismo da TV Goiânia-Band.
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