TV Brasil: o que será que será
Por José Paulo Cavalcanti Filho (*)
No íntimo de todos e cada um de nós, há duas
dúvidas principais sobre a EBC (Empresa Brasil de
Comunicação), mais conhecida como TV Brasil.
1) Ela vai fazer propaganda do governo? 2) Em país
socialmente carente, como o nosso, vale a pena transferir
recursos públicos para uma televisão?
A primeira dúvida é fácil de responder.
E essa resposta é: não se sabe. Em mais vasto
horizonte de tempo, ninguém poderá mesmo garantir
que não possa estar a serviço de interesses
políticos. Mas é também fácil
dizer que não está sendo montada para esse
fim. As biografias do ministro Franklin Martins; da presidente
da TV, Tereza Cruvinel, e sua equipe; do presidente Luiz
Belluzzo e dos demais membros do Conselho Curador não
autorizam admitir que essa TV seja usada, hoje, como chapa-branca
-assim se referem a ela alguns jornais.
Ocorre que, no fundo, a verdadeira independência da
TV Brasil só será garantida com o rigoroso
cumprimento do seu orçamento. Já se sabendo
que restrições nos recursos corresponderão à morte
da iniciativa. Ao menos, à sua morte como um projeto
independente. E, nesse ponto, a sociedade será parceira
para que funcione, não como TV estatal, mas verdadeiramente
como pública.
A segunda questão é mais complexa. Que, em
país de saúde e educação precárias,
transferir recursos a uma televisão certamente produz
(alguma) perplexidade. E a essa dúvida, mais ética
que política, não se responde apenas fazendo
uma boa televisão. Ou uma boa televisão independente.
É pouco. A TV Brasil tem que ser isso, claro. Só que
deve ser mais. E, aqui, o futuro aponta em duas linhas de
ação.
Primeiro, deve ser a cara do país. O Brasil deve
se reconhecer nela, com todos os seus sotaques e cores. Compreendendo
que tantas diferenças nos enriquecem. Funcionando à margem
da "lógica de rede", que preside a programação
das grandes corporações privadas.
Na prática, já se vendo, não deve ser
uma emissora do Rio ou de São Paulo que transmita
programas das diversas regiões do país. Mas
estimulando que programas sejam produzidos em cada um desses
lugares. Integrando TVs educativas, culturas ou universitárias
já presentes em (quase) todo o país. Aqui,
a tentação de concentração deve
ser fortemente evitada.
A segunda linha exige pensar grande. Começando por
reconhecer que a lógica da informação
mudou. Até a década de 90, era basicamente
compreendida em sua dimensão nacional; sendo a principal
preocupação as relações entre
as corporações de comunicação
e a democracia. Mas, agora, vale também como soberania.
Importante sobretudo porque vivemos a internacionalização
dessa informação.
Nesse campo, a resposta da TV Brasil deve ser buscar parceiros
na América Latina, em ação mais ampla.
A Federal Communication Commission americana, por exemplo,
passou, nos anos 2000, a apoiar a formação
de fortes conglomerados de mídia. Por compreender
que o jogo se jogará, agora, fora dos Estados Unidos.
O mundo é o mercado. Tudo sugerindo que o ambiente
dos meios de comunicação vive mudança
extrema, para a qual talvez nós não estejamos
preparados.
Por tudo, cabe agora produzir conteúdo que expresse
nosso verdadeiro rosto. E, para além, decidir também
se vamos jogar esse jogo de uma mídia internacional
ou continuaremos no papel passivo e subalterno que até agora
exercemos. Decidir se estamos dispostos a fazer parte desse
conjunto de extraordinárias transformações
prometidas pelos meios de comunicação eletrônica.
Um desafio que, bem visto, une interesses de TVs públicas
e privadas brasileiras.
A TV Brasil está em seus primórdios, é certo;
que só poderá se afirmar em um ambiente digital,
ainda em formação no país. Belo projeto,
concebido como espaço de afirmação dos
compromissos previstos na Constituição Federal
(artigo 221), com educação e diversidade cultural.
Amanhã, poderemos até concluir não ter
valido a pena. Mas é cedo para previsões pessimistas,
senhores.
(*) José Paulo Cavalcanti Filho, 59, advogado, pós-graduado
pela Universidade Harvard (EUA), é membro do Conselho
Curador da TV Brasil. Foi presidente do Cade (Conselho Administrativo
de Defesa Econômica) e da Empresa Brasileira de Notícias,
além de secretário-geral do Ministério
da Justiça (governo Sarney).
Fonte: Folha de S. Paulo |